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Precariedade x Música x BH – Entrevista #1 – Makely Ka

Rafaela Cappai Janeiro 24, 2011 DIário de Viagem 3 Comentários

Makely Ka por Helena Leão

Recentemente entrevistei 5 artistas da cidade de Belo Horizonte, em função de um artigo que desenvolvi sobre precariedade (entenda um pouco mais do conceito) do trabalho no setor da música, para meu Mestrado em “Creative and Cultural Entrepreneuship”, na Goldsmiths University of London. As cinco entrevistas foram feitas através do Skype, após uma pesquisa online respondida por cerca de 30 pessoas, que você  também pode conferir aqui. O objetivo principal foi o de identificar quão precária é a vida desses trabalhadores e mais do que isso, apontar as estratégias que eles utilizam para conseguir viver fazendo o que gostam. A partir de hoje publicarei a transcrição de parte dessas entrevistas e, em um futuro próximo, disponibilizarei o artigo final (primeiramente na versão inglês e posteriormente em português).

Começaremos com Makely Ka: ele é um cantor, compositor e poeta, com três CD’s lançados (“A Outra Cidade”, “Danaide” e “Autófago”), mais de 60 músicas gravadas por outros intérpretes e  livros lançados como “Objeto Livro”, além de editor da Revista de Autofagia. Agora ele se prepara para um novo projeto, no qual  pretende lançar seu próximo CD em uma nova plataforma para telefones celulares. Makely viaja muito, tanto dentro do País, como internacionalmente, para cantar, dar oficinas e palestras sobre cooperativismo, gestão de carreira e sobre o mercado independente de música. Ele também é Presidente da COMUM – Cooperativa da Música de Minas e tem uma intensa atuação política. Ele vê isso como uma estratégia: por ajudar os outros a vencer e superar as dificuldades e possíveis precariedades do setor, mas também para manter-se ativo e relevante. Talvez não seja possível vislumbrar precariedade no discurso de Makely sobre sua própria carreira, mas como Presidente de uma cooperativa que representa cerca de 200 músicos, ele tem que lidar com o tema regularmente, visto que seu trabalho é o tentar minizar o impacto da mesma na vida dessas pessoas. Mais uma vez reitero que as entrevistas foram feitas por Skype e que aqui apresento a transcrição das mesmas.

Veja abaixo algumas das questões apontadas por Makely:

Instabilidade x flexibilidade

“Bom, eu acho que é aquela história do copo meio cheio ou meio vazio. Porque pode ser a mesma coisa. O que alguém considera estável, eu posso considerar flexível. Mas como eu já trabalhei em empresa, como técnico em eletrônica, eu trabalhei um tempo na Vale do Rio Doce e eu tenho certeza de que não era aquele tipo de relação de trabalho que eu queria pra minha vida. Então essa perspectiva me deu outra dimensão. Eu sei que é difícil, mas eu sei que toda a área tem suas pressões, suas dificuldades. (…)  Na verdade eu acho que falta um pouco de parâmetro, quem já trabalhou em uma empresa que tem meta, cobrança constante… Enfim, quando eu passei pela Vale eu vi que não era o que eu queria pra mim, e eu acho que toda profissão tem suas dificuldades e  problemas de convívio.”

Liberdade

“Eu considero o trabalho flexível, exatamente porque eu sou responsável pela gestão da minha carreira. Sou eu que planejo,  programo, que decido os horários, o tempo que eu trabalho. Eu acabo trabalhando mais até do que se eu tivesse um emprego fixo, sabe? Tem anos que não tiro férias. Eu tiro férias e vou trabalhar. Eu vou viajar. Ano passado eu fui duas ou três vezes pra fora do País, sempre a trabalho. Você não está a passeio, mas você aproveita a viagem. Você vai pra um país que você não conhece, vai visitar alguns lugares, mas não é aquela viagem de férias necessariamente. Mas enfim, eu não posso reclamar. Eu não teria essa flexibilidade que eu tenho e não estaria fazendo o que eu gosto de fazer se eu tivesse no comércio ou se tivesse trabalhando em uma empresa em outra área.”

Insegurança

“Olha eu acho que tem uma certa insegurança, mas isso eu acho que é natural. Hoje não existe nenhuma profissão em que a pessoa esteja totalmente segura. Ela pode perder o emprego a qualquer momento, ela pode ter o emprego mais estável, que não tem garantia nenhuma. Eu sei que no meu caso só depende de mim. O planejamento que eu tenho pra minha carreira, as expectativas que eu tenho.”

Falsa projeção

“Uma coisa que eu acho que acontece muito, é uma falsa projeção. O cara projeta a carreira dele, nem é uma projeção objetiva, pensada. É uma ilusão de que uma carreira vai funcionar quando ele tiver tocando no palco de um estádio. Quando ele for uma Ivete Sangalo é que a carreia dele vai estar funcionando. Esse tipo de ilusão gera muita frustração, e eu acho muito pouco saudável lidar com parâmetros assim.”

Sustentabilidade

“Cada vez mais a gente vê que muitos mercados já trabalham com essa perspectiva de segmentação. Uma outra lógica mesmo. Não é essa lógica de “cross-over” do cara que vende para todas as camadas. Você tem um nicho específico e o seu público de acordo com seu nicho, é micro ou médio, mas nunca vai ser um público gigantesco, se você opta por um trabalho autoral. (…) Essa sustentabilidade que é importante pra gente pensar. O que eu tô querendo pra minha carreira? Sustentabilidade: eu não tenho um padrão de vida muito alto, eu não exijo toalhas brancas no meu camarim, esse imaginário que se construiu do artista… O artista é um trabalhador, como qualquer outro.

Planejamento de carreira

“Eu acho também uma coisa que é muito importante mas que muito pouca gente faz é um planejamento de carreira, não só no sentido empresarial, prático, mas uma projeção até de qual é o seu lugar nesse mercado. Eu acho que cada vez mais eu tenho um envolvimento com a política que é uma espécie de estratégia também. Não que eu estou querendo usar a política para me beneficiar de uma forma antiética, mas eu acho muito pouco provável de desenvolver uma carreira se você não tiver uma consciência política. No Brasil hoje e em muitos países a sustentação da carreiras passa pelos investimentos públicos e eu acho que é papel nosso conhecer esses canais de financiamento, cobrar, exigir transparência e aí começa essa atenção política. Nós temos que ser os atores disso. Nós temos que cobrar e participar efetivamente desse processo. É dinheiro público, não dá para chegar um gestor e dizer como vai ser feito esse investimento. A gente tem que dizer como vai ser feito esse investimento.”

Leis de incentivo

“A dificuldade não é o fato de ser anual, acho que tem várias dificuldades, mas dentro da perspectiva das Leis, eu acho que se você faz uma planejamento dá pra você lidar com essa anuidade. Claro que você não tem garantias de que vai conseguir aprovar, que vai conseguir patrocínio. Mas na verdade eu acho que a gente não deve depender das leis, eu acho que as leis são um complemento, e elas podem servir muito em alguns casos para viabilizarem um recurso que de outra forma você teria que sacrificar, vender um carro pra finalizar um produto, investir. É o que muita gente fez e ainda faz. E eu acho óbvio que a gente use isso, é um direito constitucional, as Leis de Incentivo de certa forma cumprem um dever do Estado, mas eu acho que não devem ser a única via de realização de política pública. Isso é uma discussão que a gente tem com os governos há alguns anos já, que elas não devem ser a única política de investimento e por outro lado eu acho que a gente deve buscar outras vias.”

Cooperativismo

“A questão da profissionalização foi um dos motivos que levou a gente a montar a cooperativa. Porque eu acho que não passa pela Lei a questão da profissionalização, a Lei ajuda a realizar alguns produtos, a desenvolver, mas não necessariamente ela capacita e profissionaliza. Uma coisa que acontece com freqüência: mais de 90% dos músicos que atuam no cenário, não só aqui em Belo Horizonte, mas em Minas e no Brasil, trabalha na informalidade. O que significa isso? O cara não tem nenhum tipo de seguridade social garantida. Se ele é contratado pra fazer um show, ele vai lá e faz o show, ele recebe por aquele show, mas ele não tem um contrato estabelecido. Se ele precisa emitir uma nota fiscal eventualmente, ele compra essa nota fiscal. Quando ele compra essa nota fiscal, além de estar alimentando um mercado de nota fria, nessa nota que ele compra ele tá pagando INSS, IR, todos os encargos, mas isso não está sendo recolhido. Ele não vai receber aquilo na aposentadoria dele. Buscando uma solução para reverter essa situação, a gente chegou na figura da cooperativa. É uma figura jurídica que atenua esse problema. Eu não acho que resolve não, mas com a cooperativa eu emito uma nota pelo meu serviço. Se eu faço um show pro SESC, pra Prefeitura, pra onde for eu emito uma nota fiscal e nessa nota fiscal eu vou ter o imposto recolhido. Os meus impostos devidos.”

Precariedade

Sem dúvida, é precário pelas condições que a gente tem. Quando se fala em música se pensa muito no trabalho do músico da noite, que é um trabalho realmente precário. Um trabalho em que o músico acaba se sujeitando a condições que são quase desumanas. Eu não toco em bares, tem anos que eu não toco em bares, porque é um tipo de relação que eu não estou disposto a me submeter, sabe?”

Empreendedorismo

“Acho que é uma necessidade básica até. Eu não vejo nenhum músico hoje que consiga levar a frente sua carreira se ele não for empreendedor. Não consigo enxergar uma músico que consiga estabelecer alguma relação efetiva com o mercado se ele não for empreendedor.”

O artista romântico

“Eu acho quase que inviável. Essa idéia do artista ser só artista é uma idéia muito antiga. Eu até posso ter alguém que faça as coisas pra mim, mas como já fiz em alguma escala eu tenho como cobrar o que eu quero. Eu acho isso fundamental. Saber cobrar. (…) Você tem uma dimensão do todo. É uma visão mais holística, menos compartimentada.”

Visão do todo

“Eu acho que a compartimentação do saber é um dos motivos da derrocada da indústria. Essa coisa da especialização que a indústria fonográfica incorporou. Um cara faz a capinha, outro grava o disco, outro vende e pra ele pode estar vendendo sabonete ou disco, não faz diferença. Um outro cara é só artista, ele vai lá faz o show, ele não sabe como o disco é vendido, ele não conhece o público dele. Esse tipo de relação é que ajudou a derrocada da indústria, mais do que o fator tecnológico. A minha teoria é que essa esquizofrenia da indústria levou ela à bancarrota. Ela não tinha mais dialogo e perdeu a noção do todo. E é ao mesmo tempo o grande trunfo dessa nova geração. (…) A mudança de paradigma é a relação de trabalho. O músico trabalha dentro de uma dimensão do todo. Ele tem a noção do processo inteiro. E isso faz muita diferença. E eu acho que quem não tem a noção do processo todo tá fora do tempo, sabe? Aquela idéia romântica do musico que alguém diz pra ele a hora em que ele tem que fazer as coisas: ‘Tá na hora de subir ao palco’. Eu ainda conheço muito gente assim, que não por acaso são os coitados, os que mais reclamam. Às vezes o cara é genial realmente, é um músico espantoso, fenomenal, mas não consegue se organizar minimamente. É uma situação opressora, quase. Eu não posso fazer nada por ele, é um cara puta compositor, genial, mas não consegue assinar um documento no prazo correto. E isso inviabiliza muitas carreiras. E cria aquela imagem do músico que foi prejudicado pelo sistema. É o cara que reclama das coisas, que tudo deu errado. Eu acho um pena.

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Crédito das imagens: Helena Leão

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Sobre o Autor

Atriz, bailarina, jornalista e empreendedora cultural. Mestre em Empreendedorismo Cultural e Criativo, pela Goldsmiths University of London. Sempre atenta a ferramentas, estratégias, habilidades e soluções para ajudar artistas a encontrar sustentabilidade naquilo que amam fazer. Procuro manter os dois lados do cérebro funcionando a todo vapor, pra cultivar a artista e a capacidade de fazer as coisas acontecerem. Me interesso por diy, cães, dança, teatro, contato improvisação, parkour, cinema, redes, co-working, crowdfunding, música, coletivos artísticos, novos modelos de negócios, financiamento e incubadoras.

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3 Comentários

  1. Redd Fevereiro 10, 2011 at 11:01 pm

    Adorei essa entrevista. Makely falou o que muitos músicos, não só daqui de bh, precisam ouvir. Principalmente a parte da romantização, que na minha opinião é um dos principais fatores de algumas carreiras não darem certo…
    vou continuar acompanhando as entrevistas!